terça-feira, 9 de setembro de 2014

MACAU: 139 anos

Lenda e MISTÉRIO contam a história de MACAU



Macau nasceu quando por volta de 1825 o mar revolto foi engolindo a misteriosa Ilha de Manoel Gonçalves. Segundo alguns historiadores os pescadores e comerciantes que habitavam o lugar se mudaram para outra ilha vizinha situada à direita da foz do rio Açu. Na bagagem traziam os símbolos da religião católica. Uma grande cruz de madeira e uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, heranças portuguesas, que até hoje estão guardadas na Igreja Matriz.


Surgia assim a única cidade brasileira batizada com nome chinês, que quer dizer ‘porto de Ama’, segundo Câmara Cascudo. A tese de Cascudo vem sendo contestada pelo escritor macauense, Getúlio Moura. Após anos de estudo e pesquisa para escrever o livro Um Rio Grande e Macau, Getúlio acredita que o nome da cidade originou-se nas araras vermelhas que habitavam a região do Vale do Açu e eram chamadas de  ‘macao’ pelos indígenas. Macau nasceu a partir da lenta agonia da misteriosa ilha que desapareceu no oceano Atlântico e logo ganhou importância econômica, graças à produção de sal marinho. Tornou-se vila em 1847 e foi elevada à categoria de cidade no dia 09 de setembro de 1875, data em que se comemora oficialmente o aniversário da cidade.

Conta o historiador Câmara Cascudo que a Ilha de Manoel Gonçalves recebeu o nome do sesmeiro que foi seu primeiro proprietário ainda no século 18. Era um povoado habitado por comerciantes e salineiros, com ruas estreitas e uma capelinha onde se venerava Nossa Senhora da Conceição. Na pequena ilha tinha mesa de arrecadação de impostos, juizado, delegacia de polícia e até um pequeno forte que garantia a defesa territorial das invasões dos piratas ingleses.



Marés de SIZÍGIA

A história da ilha tragada pelo mar ainda desperta algum interesse na Terra do Sal, embora não haja nenhum investimento oficial no resgate e preservação da memória local. Conversando com os mais antigos, quase nada se pode acrescentar sobre o assunto. Alguns pescadores e mergulhadores arriscam dizer que quando navegam nas águas mansas e claras do mês de janeiro, dos seus pequenos barcos é possível ver no fundo do oceano escombros da ilha que um dia abrigou próspero núcleo comercial e pesqueiro. Há quem aposte que as fortes correntes marinhas, que há mais de dois séculos engoliram Manoel Gonçalves, avançam sobre Macau devastando Camapum e no futuro próximo podem provocar o ressurgimento da antiga ilha.  O escritor e pesquisador Benito Maia Barros, UFRN, falecido em 2010, defendia esta tese.
Professor João Felipe (UFRN) trouxe equipe da TV Universitária para fazer documentário sobre a Ilha de Manoel Gonçalves

João Felipe da Trindade, professor da UFRN, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte,  é fascinado pela origem da ilha e já encontrou muitos documentos que atestam partes da sua história. Ele afirma que não se sabe, exatamente, quando a Ilha de Manoel Gonçalves surgiu e quando ficou totalmente coberta. “Há dúvidas, até hoje, quanto à origem do seu nome. Uns falam que se originou de um sesmeiro que a possuía, mas nunca apresentaram uma Sesmaria concedida a Manoel Gonçalves. Outros dizem que ele era um piloto que a descobriu ou alguém que simplesmente viveu por lá. Talvez algum documento, ainda escondido, possa esclarecer mais adiante essa incógnita”, acredita.

Durante algum tempo os fantasmas da Ilha de Manoel Gonçalves assombravam as noites e aguçavam a fantasia das gerações que cresceram ouvindo estórias dos homens do cais. Nos livros antigos a ilha aparece como uma ‘nova Atlântida do nordeste brasileiro para onde ousados piratas conduziam o ouro que roubavam dos navios que singravam os oceanos’.  Até os anos sessenta corria a lenda que um dia Macau também seria tragada pelo mar e que a igreja matriz em cama de baleia seria transformada.

Hoje, a interessante e insondável história da ilha que mergulhou no abismo desperta a curiosidade muito mais lá fora do que na cidade que se originou da tragédia.  Às vezes aparecem curiosos jornalistas em busca de dados, depoimentos, rastros que conduzam a uma boa e intrigante reportagem. Mas não há quem conte a história. Na opinião do pesquisador João Felipe, essa origem cercada de mistério, aliada a singular beleza natural da cidade, pode ser transformada em promissor potencial turístico, desde que exista interesse, planejamento e investimento por parte do governo municipal.



Um comentário:

Marcia Carvalho disse...

Como é bom ler coisas boas. Não sabia desse mistério que envolvia a origem da minha amada cidade do coração. Ou já sabia e esses dados escaparam da minha memória traiçoeira e furtivamente.
Mas... será que não tem mesmo mais ninguém em Macau que possa e queira contar algo mais??? (curiosidade mil)